Muito me espanta a maneira eficaz com que o ser humano convence outro em gastar o resultado do seu trabalho que lhe rouba horas de vida, esta sendo que, em média, permanece cerca de 80 anos, por aqui, são 2 522 880 000 segundos. Natural seria optar por cada segundo presente visto que o número não é assim tão grande, se bem que, por ideias de outros seres mais antigos, precisaríamos agora de gastar este número tão reduzido a obter dinheiro, tudo o que antes era caçar e estar com a família a contar histórias, tocar música, e ver as crianças brincar... passou a ser a constante luta de sobrevivência e, pela questão social, num consumo desmedido, sem qualquer interrogação mais séria sobre o assunto.
Phillipe, quando criança, brincava de jogar à bola, um jogo vindo não sabe ele bem de onde nem de como as regras foram explicadas, mas que era natural. Afinal de contas, uma criança brinca sem propósito e, para ela, é natural a expressão da brincadeira, a felicidade que buscamos em todo lado está mesmo ali tão claramente expressa.
Mais tarde já não podia mais brincar sem compromisso, teria agora de se apresentar a alguém para poder brincar com os meninos que agora já usavam todos a mesma roupa. Alguns brincavam melhor que outros e as regras começariam a aparecer agora: só os melhores brincam. Phillipe não era o melhor e se gostasse da brincadeira teria de ficar a ver de fora e a admirar quem realmente sabia brincar.
Era feliz, mas de vez em quando a fome apertava e teria de pedir um snack. Começou a pagar para ver aquela brincadeira e houve um dia que não conseguia ver mais não tinha dinheiro. Surgiram outras prioridades, os bilhetes ficaram insuportáveis. Mas a televisão agora mostrava essa brincadeira e Phillipe foi trabalhar mais horas para poder ter a televisão que mostrava aquilo que mais amava, já não era só a alegria de ver mas já a de recordar e de ainda conseguir sentir emoções que essa expressão humana lhe transmitia.
Até que percebeu que agora já pouco da bola que via passava na televisão analógica e teria de fazer mais turnos extra para poder comprar a digital. Claro que agora, também, pouco ou nada lhe servia, quanto os melhores meninos a brincar daquilo só passaria num único canal digital. Uma vez mais, não sendo o bastante, comprou Internet para ver outras tantas brincadeiras como aquela espalhada pelo mundo, mas para pagar tudo isto teve de acrescentar mais 20 turnos extra, se não não podia ver mais a sua brincadeira... Um dia ficou de cama, tão cansado de trabalhar.. Chovia torrencialmente, a sua televisão deixava de funcionar. Viu-se no espelho, já velho e frustrado, saiu de casa e, debaixo da chuva no campo de lama, crianças brincavam de jogar à bola. Despiu o cansaço e, com um olhar de alegria, desfrutou de uma bela tarde de sentimentos.
Já mais voltaria a desperdiçar segundos.
Jack Brelians
